oi, augustus

and I've got no rights to take my place with the human race

eu começo escrevendo isso enquanto escuto "Bigmouth Strikes Again" do The Smiths. e eu queria muito escrever sobre como me sinto nesse final de ano. hoje é o último dia de 2025. eu tenho vários sentimentos sobre esse ano — muitos deles confusos, entre o que foi bom ou não, já que passei ele inteiro isolada. são vários pontos a se considerar.

mas algo que queria pôr aqui apenas para garantir que minha linha de raciocínio continue, é uma parte da música:

Bigmouth strikes again
And I've got no right to take my place with the human race

que leva o título do post, inclusive. acho que é porque nesse momento estou sentindo uma sensação, que no inglês, se chama "sensation of impending doom" (a coisa mais próxima de uma tradução, meio que literal, dessa sensação, é "sensação de morte iminente", "sensação de perdição iminente" ou "sensação de desgraça iminente"). acho que a forma mais fácil de chamar isso, é um ataque de pânico. só que mais descritivo em certos aspectos, do que só chamar apenas de "ataque de pânico" que pode dar margens para ser sobre outras sensações também. descrevendo melhor essa "sensação de desgraça iminente", e vou pôr um trecho que encontrei na wikipedia, mas você pode lê-lo na íntegra clicando aqui.

A sense of impending doom is a medical symptom that consists of an intense feeling that something life-threatening or tragic is about to occur, despite no apparent danger. Causes can be either psychological or physiological. Psychological causes can include an anxiety disorder (e.g., panic disorder), depression, or bipolar disorder. A sense of impending doom often precedes or accompanies a panic attack.

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esse mês não foi exatamente como eu esperava, se é que esperava algo (sempre digo isso como uma forma de lidar melhor com o fato de que sim, eu esperava algo, mas como não foi o que eu esperava, então é mais fácil dizer que não se sabia). e aconteceu muitas coisas em um espaço curto de tempo, que passou muito rápido. e terminei basicamente esse mês tendo uma grande crise com despersonalização e desrealização — e isso já estava premeditado antes do começo do mês. fazendo um paralelo para o último dia de novembro para o de agora, existe uma grande ponte de como me sinto diferente (e ainda assim o mesmo?). mas eu já estava mostrando sinais, e já estava prevendo que as crises viriam e coisas aconteceriam e como sempre, no fim de tudo, eu me sentiria uma merda. como sempre aconteceu, enquanto o resto continua, mesmo parecendo que não. sobra pra mim limpar a sujeira que nem sequer fui eu que comecei, mas que inventei de me meter porque minha cabeça age tão contra mim que acha que vai ter diferença de algo que eu nem sequer tenho controle. e é outra coisa, essa questão de hipervigilância e de toda hora minha mente ficar me dizendo que eu tenho que ficar atenta e prestando atenção para intervir e tentar mudar coisas ou impedir coisas que estão além do meu controle ou poder.

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eu fui atrás de algumas coisas sobre TAG, e é incrível como a ferramenta google é tão ruim e inútil esses dias, que você tem que saber usas as palavras-chaves certas para encontrar algo minimamente decente que explique com clareza e cientificamente e não apenas um texto tão reducionista a certos comportamentos, que me deixou meio preocupada e tenho certeza que é por causa dessas pesquisas que as pessoas acham que "ah, mas todo mundo é um pouco assim hoje em dia, né?", e não. o que me deixa a dizer: que as pessoas realmente nunca vão entender como alguém que têm um transtorno realmente crônico é. nem mesmo os recentes médicos que se formam. a medicina pós-feudal possui um propósito, e aqui eu entro em papo de capitalismo e os escambau, porque há um propósito para manter um sujeito apenas útil — como questões de preocupação com reprodução, e de como o sujeito é útil para a sociedade; e se ele apresenta algum problema, da qual essa utilidade fique danificada, imediatamente é domado por patologização e imediatamente medicado até o talo, para que funcione. faça tudo para funcionar. como quando quebramos algum aparelho tecnológico e ele dá problema e precisamos fazer todo tipo de gambiarra para que funcione o suficiente para nos contentarmos. é assim que funciona! e a verdadeira fonte do que causa aquele sofrimento e problema psiquico é ignorada. e isso leva a outros lugares das quais já podemos imaginar!

a verdade é que ninguém é livre, dono de si e possui qualquer tipo de controle do que acontece sobre si ou do que acontece ao redor na sociedade em que vivemos (que é programado para ser do jeito que é antes mesmo dos nossos tataravós terem nascido). no final de tudo, somos apenas mercadoria. medicalizados o suficiente para que o que precisa ser feito seja feito!

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o que me deixa a pensar que, além de ter que lidar com essa realidade cruel, em que o sujeito é sempre a peça central da culpabilização da forma como seus aspectos neurais se apresentam, e ainda recai sobre ele a responsabilização para mudar essa realidade (agir mais, socializar mais, ser mais produtivo, se engajar etc), ainda tem o fato de que você, como ser humano, incluído em um núcleo familiar, precisa lidar com familiares que nem sequer entende o que se passa com você. com pessoas ao redor, nas convivências sociais, que não entendem o porquê do seu comportamento ser do jeito que é — acrescente ainda a singularidade de nós como seres humanos como espécie, raça, etnia, gênero e sexualidade. pronto, a fatalidade aumenta ainda mais. e no fim, apenas jogue nos hospitais psiquiátricos para que se livre logo desse problema! ou, tente passar sua vida sendo o que você não é, suprimindo tudo isso dentro de você, fingindo e fingindo e fingindo. vamos ver até onde isso vai. até onde se pode realmente aguentar (spoilers: você não vai aguentar).

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então, depois de passar por decepções pessoais esse mês, por coisas já repetidas, que se repetem a minha vida toda, e eu me sentir cativeira desses padrões, eu entrei em um estorpor (como dito antes). nem sequer precisei de remédio para dormir, eu só fazia isso. chegava a tarde eu já estava dormindo. e mesmo assim, acordava de manhã (sendo que esse ano eu passei ele inteiro acordando tarde, porque não queria ter que lidar com a pressão e a bagunça que é de manhã) apenas para quando chegasse o início da tarde eu fosse dormir. ir dormir já quase amanhecendo, e acordar ao entardecer foi o meu modus operandi por esse ano inteiro, para chegar nos 45 do segundo tempo e fazer a troca. tudo, porque a decepção e o sentimento de vazio foi tão grande que... eu só não queria existir nem pelo restante do dia e nem pelo restante da noite. natal... bem, outro decepcionante, mas ainda consegui fazer algumas coisas, mas dormi cedo depois de enfrentar de frente o que eu sempre esqueço: que eu não tenho poder para mudar nada, nem ninguém, e que por causa do estado em que me encontro, eu também não consigo sair dessa realidade. e também tem o medo. um medo terrível. só a ideia de que outro ano vai começar e toda essa coisa de: "novo" e "renovado", e tudo começando (odeio começos e odeio fins) me deixa em um estado terrível de "sensação iminente de desgraça". de que ainda têm outras coisas para acontecer, porque, infelizmente pra mim, SEMPRE TEM ALGO ACONTECENDO. e enquanto têm fogos, têm pessoas fazendo coisas, eu só sinto paralização e uma tristeza profunda. e, de certa forma, eu entendo que viver com alguém assim, sendo alguém funcional, neurotípico etc, deve ser outro tipo de inferno também. um tanto quanto pessimista, não é? mas é a verdade, e eu preciso dizer a verdade. porque passei muito tempo não dizendo a verdade, nem para mim mesmo.

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é desagradável, eu sei, mas uma coisa que é necessário aceitar é que se é desagradável. não se doer, se cobrar e se performar de algo que não é para provar que não é. não estou dizendo sobre pessoas que são desagrádaveis pelo prazer de serem más, obviamente não é onde o meu raciocínio está indo pelo amor de deus, mas de personalidades que... não convém e é muito difícil de engolir para a maioria das pessoas — ainda mais de pessoas como eu. os que nunca foram aceitos ou incluídos, não de verdade, que nunca foram bons o bastante para serem considerados. dói, dói aceitar isso. mas, é melhor do que uma mentira, ou a invasão dessa mentira. no fim a verdade sempre vai ser mais fácil de lidar não importa o quão dolorosa ela seja, do que uma mentira que impoem a você, ou pior, quando você faz isso consigo mesmo.

quando a música do The Smiths trocou para Pride de Kendrick Lamar, eu imediatamente tive que dar uma parada para ouvir.

Hell-raising, wheel-chasing, new worldly possessions Flesh-making, spirit-breaking, which one would you lessen? The better part, the human heart, you love 'em or dissect 'em Happiness or flashiness? How do you serve the question?

e me lembrei de uma época, há um ano atrás, em que eu pareço uma estranha para mim mesmo. eu ainda tenho a capacidade de conversar com as pessoas, de sair de casa e andar por aí, mas... algo parece desconectado totalmente. eu parei mais de usar a máscara que sempre usava quando lidava com pessoas, isso levou a não ter conexões mais profundas com elas mais, porque adivinha? eu não quero mais fingir. acabo sendo a pessoa que sempre fui, e isso... incomoda elas. já incomodava quando fingia, imagine agora quando eu não quero? de vez em quando eu escorrego, porque esse tipo de comportamento que se carrega por anos não some de uma vez. não, ele ressurge nos momentos que você menos espera e o sentimento de frustração é chato. pequenas inconveniências que conseguem ser mais insuportáveis de lidar do que os grandes problemas.

See, in the perfect world, I would be perfect, world
I don't trust people enough beyond their surface, world
I don't love people enough to put my faith in man
I put my faith in these lyrics, hoping I make a band

eu só não consigo mais lidar com outros como antes. não dá. não aprofundado, porque isso significa que vou perder parte de mim novamente, e eu não tolero mais isso acontecer. e nem quero me submeter a algo desse tipo novamente. não há nada pior do que você ver a si mesmo se perdendo, saber que está se perdendo e ainda assim permitir esse tipo de violação contra si mesmo.

![Cheatsheet image example] (https://i.pinimg.com/736x/fc/84/c3/fc84c3cbc18e7741100dea03357b2197.jpg)

eu não sei metade das coisas que estou fazendo, man. eu realmente não sei. eu me sinto tão perdida e fora da realidade, como se tivesse dirigindo em uma estrada garoando ao entardecer com Jim Morrison cantando

There's danger on the edge of town
Ride the king's highway, baby
Weird scenes inside the gold mine

eu realmente não sei como conciliar todas essas coisas. tantos as que disse, e da qual não irei me repetir, como expectativas sociais em relação a tudo que sou: sexo biológico, ausência de gênero (agênero), pobreza, etnia, povo etc. parece demais. tão demais que, eu realmente nunca consegui ver o grande apelo por querer estar nesse mundo por tanto tempo, ou em qualquer tempo, na verdade. acho que por isso que tenho posições antinatalistas e opiniões nada agradáveis a humanistas também.

eu sinto tudo isso ao mesmo tempo. sem saber como organizar ou categorizar, esse texto foi a coisa mais próxima disso — e ainda assim sinto que nem foi tudo o que eu gostaria de dizer. estou escrevendo isso há duas horas, praticamente. procurando as palavras certas que se encaixem ao que realmente quero dizer. fazê-las parecer ter mais sentido do que elas realmente têm na minha mente.

agora, uma coisa nua e crua sobre mim, para esse fim de ano, e que passei pensando o ano todo, mas de novo, é fácil esquecer e depois lembrar da pior forma possível quando o balde de água gelada é jogado em você. primeiramente, eu tentei. juro que realmente tentei, mesmo fraca, mesmo debilitada, eu ainda tentei dar o melhor que eu podia (não sei se isso foi suficiente, muitas das vezes, nunca é e nunca foi para as pessoas que convivo a minha vida inteira nem as de fora também). alguns planos deram em fracasso porque tentei mudar algo, mas como disse, não depende de mim. não tenho poder sobre o outro. então... aceitar é o melhor remédio, não é? já foi! é o que dizem para mim, ao menos. eu tenho um grande problema em lidar com pequenas incoveniências. eu os detesto. me deixam em um estado de "impending doom" terrível. mesmo que os grandes problemas nem tanto. mas os pequenos? odeio. odeio lidar com coisas mínimas, detalhistas e quando elas se transformam em problemas, é o meu fim, eu temo! por isso entro em pânico toda vez que vejo meus pais lidarem com eles e pedirem minha ajuda. eu não sei lidar com isso. me peça qualquer coisa, lidar com algo maior, mas não com essas pequenas incoveniências que além de me darem ataques de pânicos recorrentes, são as coisas mais ENTENDIANTES possíveis. eu gosto de ficar quieta. quando essas pequenas incoveniências partem de pessoas, sinto dizer que a pessoa que já fui que tolerava isso a níveis bem humilhantes não existe mais. e nem é porque quero pagar de diferentona, eu estou dizendo, que depois de ter passado por um trauma que ainda me marca até hoje, alguma coisa fisiológica também aconteceu — é bem capaz de eu estar trocando atos físicos violentos antes de perceber quando lido com bobagem de pequenas incoveniências.

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também estou cansada de me importar. eu amo as pessoas com quem convivo (família) eu amo, de verdade. mas eu estou cansada de me importar em mudá-las ou sei lá, qualquer coisa que envolva me importar. EU TENTEI esse ano, durou por algum tempo, mas chegou uma hora que CANSOU porque quando é algo unilateral toda a vontade morre! eu tive minhas brigas esse mês em relação a me importar. de sempre alertar e alertar e alertar. de chamar a atenção. msa chega uma hora em que você não pode mais se matar de preocupação por outras pessoas com a síndrome de salvador (imposto a mim uma vez, inclusive). mas, como eu disse, nunca sou realmente ouvida. nem entendida, nem compreendida. outra coisa que peco MUITO é sempre voltar para esse comportamento de querer ser compreendida e entendida, é infantil até. porque eu tenho isso desde criança. mas já deu a hora, hein? lembra sobre o que eu disse sobre verdades?, essa é uma delas. bem cruel. mas já deu o que tinha de dar. acho que chegou o momento em que você vai ter que andar com as próprias pernas, por mais que doa saber que you're on your own.

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e, sobre se importar, algo que mantive esse ano (que me ajudou, no entanto) é o vício em estar em redes sociais (como tiktok e instagram) apenas para não me sentir sozinha. o que não é bom, chegou um momento nesse final de ano que eu não aguentava mais. um ano isolado não é pouca coisa. e ainda mais vivendo em uma família disfuncional... eu precisava de algo para me distrair (alguma coisas me ajudaram, como eu disse, alguns vídeo no tiktok de pessoas que falam sobre esses assuntos e tals) mas como tudo tem seu lado ruim, e o lado ruim sempre tende ser o pior, foi quando eu ainda tive que "conviver" indiretamente com pessoas que não faziam mais parte da minha vida ou que eu ainda insistia em manter (papo de pessoas que me traumatizaram e me deixaram que nem cachorro morto chutado no meio fio, eu não estou nem sequer exagerando), e quando as via (vejo, porque ainda estão lá) eu ficava (fico) com aquele sentimento ruim por dentro de como é injusto que elas sigam com sua vidas, até melhores, bem, enquanto eu tive que passar pelo crime e castigo. isso me fez me questionar se era inveja da minha parte, sentimento de injustiça ou ciúmes. bem, eu definitivamente não queria ser como elas, nem o que elas tinham. o que eu queria, uma coisa bem feia dentro de mim, admito, é que de alguma forma elas pagassem. como? eu não sei. mas que pagassem e soubessem do porquê estavam pagando. depois que tudo passou de toda essa raiva, nem sequer me importei de verdade. mantê-las só é uma forma de me lembrar que tudo passa, você querendo ou não, felizmente ou infelizmente, tudo passa e a vida segue (é, a parte mais dolorosa é que a vida segue e vai caber a você ficar lá catando os cacos e seguir também, ou se remoer, como fiz várias e várias vezes. mas infelizmente é necessário se remoer para depois lembrar pelo que realmente quer, não sugiro pular essa etapa do rito de passagem. é necessário sentir até as coisas mais feias, se não elas vão continuar voltando e voltando e vai ser pior para lidar com elas — papo meio de coach, mas tá ai o conselho para eu mesma não esquecer no futuro).

eu também me recuso, sobre todos os meios, a agir de forma que não sou. isso inclui minhas vestimentas e aparência (tinha um problema com eles desde sempre, embora nunca me impedisse de me vestir e ser como eu quisesse, a questão era o que eu sentia, e foi desse peso que me livrei esse ano, prestes a fazer 24, e só agora o peso vai embora nem que eu jogue ele na caçamba). vai ser assim, as pessoas gostando ou não. sabe, minha eu criança/adolescente nunca esteve errada nisso, mesmo que ouvisse todos os tipos de comentários e bullying, sabia? eu tenho que reconhecer que mesmo passando pelo pão que o diabo amassou ela foi durona pra caralho em se manter mesmo quando se sentia mal por não ter uma aparência conveniente, ou um estilo conveniente (e ter várias pessoas assumindo coisas sobre você e você também nunca ter sido desejada por ninguém — nem pra amizades ou relacionamentos, não que relacionamentos realmente fosse uma boa ideia com o que eu já sofria na época só com amizades, quem dirá relacionamentos). mas mesmo diante da pressão eu não cedi (assim, eu até cedi em determinado momento mais recente — 2022 — e tentei outras coisas para me encaixar, mas eu só tava mentindo para mim mesma descaradamente e aquilo foi um desastre que faço questão de não lembrar, para mim tá morto, definitivamente). então, a dica daqui pra frente é cortar todos os laços mesmo, e não insistir nisso, nem por medo de perder algo. é mais horrível perder os próprios princípios do que qualquer coisa que possa ganhar por manter algo que não é para manter mais.

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In a white room with black curtains in the station
Black roof country, no gold pavements, tired starlings
Silver horses ran down moonbeams in your dark eyes
Dawn light smiles on you leaving, my contentment
I'll wait in this place, where the sun never shines
Wait in this place, where the shadows run from themselves
White Room, Cream

I don't ever wanna feel
Like I did that day
But take me to the place I love
Take me all the way
I don't ever wanna feel
Like I did that day
But take me to the place I love
Take me all the way
Under The Bridge, Red Hot Chili Peppers

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