oi, augustus

o girlbossification

Carrie Bradshaw

depois de cinco meses, sou uma pessoa diferente, não tenho mais cabelo grande, tudo foi cortado e doado. comecei terapia e depois parei por falta de grana. gastei o que podia e o que não podia em um monte de coisa, não me arrependo pelas coisas que vivi, porém não gosto de ter dívidas kkkk. ainda assim, ainda sou.

Tive uma morte de vontade de escrever, de ler, de ouvir músicas. Toda vez que tentava vinha aquela sensação fatigante, uma náusea. Tentava entrar no substack, a rede vizinha de novos pensadores e escritores, e saia de mãos vazias e ainda mais irritada com o sensacionalismo que enche aquele feed assim como enche tantos outros.

Perdão a qualquer substequeiro aqui presente, a reclamação não é a plataforma e os escritores em si, mas muito do conteúdo que é jogado. É um "girlbossification" que toma toda a plataforma como vinhas. É o mesmo no tiktok e no instagram e no twitter (porém, no twitter, não acho que deixem criar raízes, não poderia dizer porque eu já me afastei daquele umbral).

Tem se tornado uma atividade hercúlea ter que se engajar em algo, vindo de alguém que gosta muito de se engajar nas coisas. De participar, mesmo que não ativamente, ou a distância, mas ainda assim estar presente de alguma forma. Mas tudo se torna sensacionalismo e pânico emocional. Todos se juntam e repetem a mesma coisa, que falam a mesma coisa, como que conectados por uma rede de vírus. Tentar ver, ouvir e ler qualquer coisa se torna impossível. Se torna uma atividade da qual só surgem perguntas de "como estou sendo influenciado por isso?" ou "será que isso vai me afetar de alguma forma, mesmo sem perceber?". É sempre o mesmo modo de espetaculosidade de anunciar-se perante as massas, é sempre a mesma urgência espalhafatosa. O mundo está acabando e a culpa é sua. Eles decidem. Eles batem o martelo e então se torna a verdade. O que dizem é a verdade.

Uma vez me deparei com uma frase, há uns seis anos, enquanto estava nas andanças da internet procurando uns sites sobre Isaac Asimov e suas polêmicas com assédio, e uma frase apareceu. O artigo era sobre intelectuais e autores no geral, e de como até mesmo os considerados "gênios" não fogem do que o autor da frase disse como: "cuidado com intelectuais, mais preocupados com palavras do que com pessoas". E durante todos os anos seguintes a minha descoberta dessa frase, fui testemunhando isso em vários lugares com vários rostos diferentes - sobretudo na internet. O lugar mais aponta dedo que existe, onde, mesmo que você não queira, é tragado pelas massas de acusadores, e quando menos percebe está disseminando o mesmo ódio da qual você questiona. É de uma demagogia tamanha.

Seja de direita à esquerda, da esquerda à direita e até centro, encontra-se uma fileira de mapas interclicáveis de demagogos, tartufos, e santarrões. É o girlbossification.

Não há mais entendimento das complexidades das coisas, é algo latente. A qualquer momento pode se manifestar o preconceito, mesmo naqueles que dizem não ter ou lutar contra, e hora ou outra (senão sempre) questiona-se o moralismo alheio. Santarrões. Tudo é culpa sua, individualidade no negrito mesmo. 10 formas pela qual você destrói o planeta, motivos pelo qual você deveria parar de usar poliéster, porque VOCÊ está destruindo o planeta, maneiras pelas quais você contribui para o desmatamento, você não consegue guardar dinheiro e a culpa toda sua dez formas para mudar sua vida financeira e ter mais disciplina.

Enquanto isso, fecha-se os olhos para as complexidades políticas, geopolíticas, ideológicas, econômicas, políticas públicas, desigualdades, patriarcado, misoginia, classismo etc. Coisas que não podem ser resumidas em apenas 1:50 de vídeo. O quintal do vizinho é sempre mais verde.